sábado, 15 de junho de 2024
sexta-feira, 24 de maio de 2024
Pequenas crônicas de minha terra (7) - Um trem na nossa cidade
Pequenas
crônicas de minha terra (7)
Um trem na
nossa cidade
Na primeira metade do século passado, a
nossa região (dos Lagos) tinha como principal fator de desenvolvimento a extração
de sal. Havia uma grande necessidade de fazer um escoamento mais rápido.
Paralelo a isso, na pequena vila do Arraial do Cabo havia um
local ideal para haver esse escoamento via navio no “pontão” do forno, na enseada
dos Anjos.
Em 1929, a Perynas, na época a
principal indústria salineira do país, tendo à frente Miguel Couto (futuro
Governador e Senador fluminense), obtém o direito de utilizar o porto do Forno.
Para
isso é feito um grande investimento, construindo uma estrada de ferro partindo
da raia do Forno se dirigindo a Ponta das Perynas na lagoa de Araruama e com pequenos ramais para a Ponta de
Massambaba e Ponta da Costa.
Assim,
em média 3 vezes por semana, sem horário físico, um trem a vapor, composto de 3
vagões, carregando toneladas de sal. Esse trem cortava a pequena cidade soltando
vapor e faíscas das madeiras queimadas nas caldeiras. E essas faíscas eram um
verdadeiro tormento para os moradores vizinhos a estrada férrea.
Acontece
que no Arraial havia muitas casas eram de pau a pique, com o telhado de uma espécie
de palha retirada em áreas úmidas da restinga. e as faíscas, ao cair nesse
telhado, provocava incêndio . Para completar, a água era muito escassa.
Assim
sendo, era comum os moradores deixarem latas d’água a frente de casa para um
socorro mais imediato. Como não tinha um horário fixo, o jeito era deitar perto
dos trilhos, encostando o ouvido, para escutar se havia trem chegando. quem
ouvisse, saía a gritar “O trem está chegando, o trem está chegando” e tomavam posições,
“armados com as suas latas para defender suas casas.
Hoje,
não temos mais sinais dessa linha de ferro.
quarta-feira, 22 de maio de 2024
Pequenas crônicas de minha terra (6) Porto do forno
Pequenas crônicas de minha terra (6)
Porto do Forno
Lembranças de que durante a minha adolescência na década de
70, aos domingos à tarde, saiamos em pequenos grupos para o “cais”, poie era um
dia permitido de ser visitar os navios. Era tudo muito limpo e organizado e um tripulante,
vestido como marinheiro, nos acompanhava a falar sobre o navio, a bussola, o
leme, a importância do transporte naval.
O porto do Forno (nosso antigo cais)
está preste a completar 100 anos. O que era um pequeno cais de embarque e
desembarque de pescadores, primeiro se transformou num espaço de barcos maiores
para levar o pescado para a capital da república e outras cidades.
Depois,
como o desenvolvimento das salinas na nossa região, se transformou no ponto final
da saída do “ouro branco” para as outras cidades. Foi algo que cresceu tanto que nos anos 30,
foi construída uma estrada de ferro, onde um trem fazia o Perynas até o porto,
facilitando assim o escoamento da produção.
Nos
anos 50, foi pelo porto que toneladas de máquinas vinham da Europa para a
implantação da Companhia Nacional de Álcalis, exigindo para isso melhorias para
receber grandes navios. Depois, foi
sempre uma parceira importante na indústria, tendo um grande fluxo.
Algo
que mexia com a rotina da cidade era
ouvir os apitos do navio chegando, pois
era um atrativo para a pequena cidade ver aquela grandes embarcações se
aproximar e atracar no cais.
Essas
lembranças me fazem ter a noção que o
Porto do forno, o nosso cais, era algo muito mais nosso. Tínhamos uma espécie d
sentimento de pertencimento que, infelizmente, fomos perdendo com o tempo.
Hoje,
parece que o porto está no Arraial... mas não é nosso.
Pequenas crônicas de minha terra (5) Sal – O ouro branco
Pequenas
crônicas de minha terra (5)
Sal – O ouro
branco
Somos fruto de uma aldeia de pescadores. Essa é a
nossa vocação embrionária. Mas paralela
a essa vocação, muitos moradores do
Arraial do Cabo, assim como de toda a Região dos Lagos, teve a extração do sal
como uma maneira digna de, com o suor do corpo, trazer o sustento para a
família.
E foi através dessa extração do Sal
que a região teve os primeiros sinais de desenvolvimentos, pois saia de nossa
região tonelada de sal para abastecer os grandes centros comerciais do Rio de
Janeiro e de São Paulo.
Entre esses primeiros sinais de
desenvolvimentos, podemos dar como exemplo a construção do Porto do Forno,
localizado em um local estratégico e a chegada de uma linha de trem que recebia
o sal dos armazéns e traziam até barcos (navios) para um transporte mais
eficaz.
Nas décadas de 70 e 80 teve início a
queda dessa atividade econômica e hoje restam poucas salinas em nossa região,
sendo uma na região de Figueira.
Interessante lembrarmos que a
empresa de transporte de ônibus que atende a nossa região se chama Salineira,
pois serve as nossas antigas salinas transformadas em bairros e em municípios.
O grande ícone desse tempo não são
os lindos moinhos nem as belas quadras brancas. São os SALINEIROS, brava gente
de nossa região que com suor e trabalho digno, ajudaram no crescimento de
nossas cidades
Pequenas crônicas de minha terra (4) - O TELEGRAFO DO CABO
Pequenas
crônicas de minha terra – 4
O telegrafo
do Cabo
Muito antes
da construção do FAROL VELHO, em um dos pontos mais altos do Pontal do
Atalaia, em um mirante natural, foi
erguida uma construção para
funcionamento de um Telegrafo.
Em um local
estratégico, pois a visão do local é bastante ampla, podendo avistar navios e
barcos a distância. O telegrafo tinha a função de se comunicar com as
embarcações através de um código de
bandeiras, como também de enviar mensagens para outros observatórios.
Assim eram
monitoradas as embarcações que apareciam por todo nosso litoral, e com certeza, os piratas e
os invasores eram descobertos com certa antecedência.
Podemos
viajar no tempo e imaginar o trabalhador
no silencio do mirante, a observar o mar, em dias de calmarias e em dias
de tormentas, a procurar um ponto diferente no horizonte e observa-lo até se
aproximar mais e se dar a conhecer.
Hoje, desse
local, só restam histórias e uma imagem da ruína.
segunda-feira, 15 de janeiro de 2024
Pequenas crônicas da minha terra 3 - O bicho do Cabo
O bicho do Cabo
Existe
na literatura brasileira uma história contada em 1854 pelo escritor cabofriense
Teixeira e Souza, primeiro romancista brasileiro, em seu livro
Providência, que faz menção a um acontecimento em nossa região entre os anos de
1819 e 1820.
Nessa
época uma terrível seca afligiu cabo frio e todo o seu contorno. Esta seca foi tão rigorosa que não só fez
secar a quase todos os pântanos e lagoas que nunca secaram, como fendeu o solo
até grande profundidade. E esse acontecimento
coincidiu com aparição de um animal
marinho até então desconhecido, fazendo com que o povo ligasse a seca com
aparição.
Perto
de Cabo frio, há três léguas, existia um pequeno arraial, que era chamado simplesmente
“o Cabo”. E como era nas praias desse local que aparecia esse anfíbio, o povo
lhe chamava de “o bicho do Cabo”. O povo dizia que esse animal era muito feio,
porém nunca fez mal a pessoa alguma, e que as vezes ele foge da presença
humana.
Um dia,
esse pobre bruto envolveu-se numa rede dos pescadores, e esses, por sentirem
grande pavor, o mataram a pauladas e fisgadas. Enquanto apanhava, o coitado
soltava gritos como os humanos. Depois de morto, cortaram uma das mãos e
andaram mostrando pela cidade.
Atribuía-se
a esse animal coisas extraordinárias e por incrível que pareça, após essa
fatalidade, veio uma forte chuva na
região, acabando com a seca e fortalecendo a crença que tudo era causa do bicho
de Cabo.
Pequenas crônicas da minha terra 2 - Somos Arraial e Cabo
A nossa referência
As
vezes ficamos a pensar sobre o nome de nossa cidade. E entendemos que não
poderia haver nome mais esclarecedor sobre nossa localização e nossa origem.
Lembro que na época da emancipação, algumas pessoas deram a ideia de trocar o nome.
Alguém até sugeriu Cidade do Cabo. Ainda bem que não trocaram. Afinal tivemos
origem e ficamos por alguns séculos como um simples arraial na pontinha de um
distante cabo, praticamente dentro do mar
Arraial é uma palavra de origem
portuguesa que significa acampamento ou lugar onde se acampa. No Brasil, o
termo é utilizado para se referir a pequenas vilas ou povoados que surgiram a
partir da união de grupos de pessoas em torno de uma atividade econômica, como
a mineração, a agricultura e, no nosso caso com a pesca.
Por sua vez, Cabo é um acidente geográfico formado por
uma massa de terra que se estende adento de um oceano ou mar. Muitas vezes essa
extensão de terra exerce influências sobre correntes costeiras e outras
características oceanográficas.
Assim somos, por natureza, um povoado mar adentro, uma pequena
vila a beira-mar, uma aldeia de pescadores ou sintetizando, um Arraial do
Cabo. Interessante que a preposição “do” nos fornece uma ideia de
pertencimento. Pertencemos a esse local. Pertencemos a essas praias de areias
brancas, a esse marzão de águas frias. Temos em nossa pele as marcas do vento,
das brisas, respiramos esse cheiro de mar
Somos um Arraial no Cabo.









